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日志


6月12日

Memórias Póstumas

                Da varanda do seu apartamento, no último andar de um velho e renomado prédio, ele observava a cidade lá embaixo. A noite estava começando, os carros passavam na avenida como se fosse um efeito especial luminoso, não dava para ver a Lua cheia, pois o céu estava nublado, a chuva se aproximava lentamente desde cedo, mas de alguma forma insistia em não cair. Ele levantou-se, foi até a sala e pegou seu violão, depois voltou pra varanda, tentou tirar algum som, mas tudo que conseguiu foram algumas notas arranhadas.

                Deixou o violão de lado e acendeu um cigarro, encheu mais uma vez o copo de uísque e o colocou em cima da mesinha à sua frente. Levantou e foi até o parapeito, deu uma olhada para baixo e se perguntou se aquele era mesmo o mais alto que ele poderia alcançar em seu vôo. Ele tinha quase tudo que alguém vindo de uma família humilde pode querer na vida, um emprego excelente, um apartamento de luxo, um carro do ano, amigos de infância. Só lhe faltava uma coisa, uma coisa que ele havia perdido há muito tempo.

                Começavam a cair os primeiros pingos da chuva que vinha se preparando desde o começo do dia, e dava pra perceber que seria uma chuva forte. Ele rapidamente pegou o violão, o uísque e o cigarro e entrou no apartamento. Viu o seu notebook sobre a mesa e um pensamento lhe ocorreu. Foi até o seu quarto, abriu o guarda-roupas e começou a procurar alguma coisa. Revirou tudo e não conseguiu encontrar o que procurava. Ocorreu-lhe que o que procurava poderia estar na velha caixa em que ele guardava suas quinquilharias do passado, mas onde estava essa bendita caixa era o que ele se perguntava.

                Anos haviam se passado desde a última vez que aquele homem havia sentido aquela aflição que o alcançava naquela noite de chuva, no último andar de um prédio. Ele decidiu então sair, pegou as chaves do carro, os cigarros e a pequena garrafa de uísque e saiu do apartamento. Caminhou até o elevador no final do corredor, parou na frente dele e apertou o botão para que o elevador subisse. Enquanto aguardava pela chegada do elevador, ele colocou a mão no bolso e pegou um cigarro, levou-o até a boca, mas hesitou em acender. Por muitas vezes ao longo da vida ele tinha tentado parar de fumar, mas nunca conseguiu deixar o vício definitivamente. Dessa vez parecia sério, ele estava decidido a não acender aquele cigarro, o colocou de volta no bolso e decidiu por não usar o elevador e descer pelas escadas, talvez os lances de escada do décimo terceiro até o primeiro andar o fizessem refletir um pouco.

                Ele descia vagarosamente as escadas, sentia que não sabia bem o que estava fazendo, apenas estava fazendo, como se fosse um rio que corre sem saber ao certo onde vai parar. Cada lance de escada trazia de volta velhas lembranças, velhas memórias, velhas atitudes, velhas promessas, velhos amores. Coisas que por muito tempo estiveram esquecidas, ou pelo menos ignoradas lá no fundo do seu subconsciente, onde ele as havia enterrado, na esperança de que poderia, assim, viver o restante de sua vida em paz. Mas ele tinha visto em algum filme velho um homem dizer: “Si vis pacem para belum”. Se quiseres paz prepara-te para guerra, ele não tinha feito isso, ele tinha fugido, sob a ilusão de que não mais seria alcançado por suas aflições, e que assim alcançaria a paz para seu espírito. Mas naquela noite elas estavam voltando a atormentá-lo, e agora ele não fazia idéia de como se livrar delas, porque não sabia sequer como elas poderiam afetá-lo.

                Ele estava muito suado já, não era mais um garoto de 20 anos, e sim um homem de 38, e ainda lhe faltavam cinco andares. Ele olhou para o elevador, mas insistiu em ir pelas escadas e, poucos lances antes de atingir o térreo, uma forte dor percorreu todo o seu corpo e parou o seu coração, ele acabara de ter um infarto. Cambaleou até o último lance da escada, até que despencou no chão do saguão da recepção. Um dos recepcionistas correu em seu socorro, e outro de prontidão ligou para uma ambulância, minutos depois a ambulância chegou. Ele estava respirando, embora estivesse desmaiado. Os paramédicos imediatamente o conduziram para o hospital mais próximo, no caminho o seu coração parou e os paramédicos usaram o desfibrilador para fazê-lo bater novamente. Ao chegar ao hospital, ele estava acordado, não muito lúcido mais acordado, ou pelo menos de olhos abertos. Ele foi conduzido imediatamente para a Unidade de Tratamento Intensivo, sala de cirurgia. O seu plano de saúde era um dos melhores do mercado, ele estava recebendo tratamento de primeira classe e certamente sobreviveria.

                Algumas horas depois ele estava no repouso, e lia um velho livro dos tempos de adolescente que sua mãe havia trazido, apesar de velhas as páginas ele percebia que a essência do livro ainda era a mesma de quase 20 anos atrás, e de repente pensou em algo que o fez derramar uma lágrima. Perguntava a si mesmo se era possível que assim como a essência daquele livro, a essência daquele sentimento estranho que um dia ele sentiu havia se mantido intacta, mesmo que escondida dentro do seu subconsciente.

                Mas que sentimento seria esse capaz de resistir ao tempo, que subjuga tudo, e a distância, que faz com que as coisas passem, que tipo de sentimento pode ser tão grande e capaz de domar até mesmo o mais selvagem dos espíritos humanos. Será que era mesmo possível que, mais uma vez, os sentidos daquele homem, que boa parte da vida havia se considerado invulnerável, seriam abalados por um sentimento tão diferente e tão forte, ele se perguntava. Sem saber a resposta, olhava para sua mãe e pensava o que ela, que nunca o havia ouvido falar sobre isso, diria se ele a questionasse sobre isso.

                No dia seguinte, ele recebeu alta e estava voltando para casa com seu irmão. No caminho ele ouvia em sua mente os ecos dos pensamentos que o afligiram há duas noites e se perguntava por que eles estavam voltando a atormentá-lo. Como era possível depois de tanto tempo que isso ainda o incomodasse, mas, talvez, essa não fosse a pergunta que ele de fato se questionava, o que ele mais queria saber nesse instante, era onde ela estava, o que fazia agora, será que ela havia se casado, será que tinha filhos e será que valia a pena saber as respostas para essas perguntas.

                Ele pediu ao seu irmão que o levasse até certa praia, o irmão relutou afinal ele acabava de se recuperar de um infarto, mas no fim acabou por atender à vontade do irmão mais velho. Ao chegarem lá muita coisa tinha mudado desde a última vez que ele tinha estado ali, mas ele sabia que era pouco provável que o lugar que ele procurava estivesse diferente em algum aspecto, afetado apenas pela ação da natureza é óbvio. Ele pediu ao irmão que o levasse até a beira da praia, o deixasse lá e quando fosse à hora ele telefonaria para vir buscá-lo. Mais uma vez seu irmão resistiu antes de atender a sua vontade.

                Ele caminhou por um tempo na beira da praia, até que chegou até onde queria. E como ele havia previsto apenas a natureza havia alcançado aquele lugar, não havia ainda sinais da ação direta do homem, era o mesmo lugar de antes. E ele caminhou em direção ao exato lugar onde tudo havia começado, e sentou-se no mesmo lugar que havia estado naquele verão, há quase vinte anos atrás. E olhou do horizonte da mesma forma que tinha olhado naquele dia, lembrou-se então dos sonhos que haviam passado na sua cabeça ali mesmo quando encarou aquele horizonte pela primeira vez, lembrou de uma velha música do seu tempo de adolescente e, por fim, mas, certamente, mais importante, lembrou dela, do seu sorriso, da sua voz, de todos os mínimos detalhes daquele verão inesquecível, e não só do verão, mas de todos os dias em que estiveram juntos. Agora ele sabia que a verdade é que ele tinha, de fato, perdido uma parte de si quando ela decidiu partir.

                Era hora de voltar, pegou o telefone e ligou para o irmão, o instruiu que o apanhasse no mesmo lugar em que tinha lhe deixado, e exigiu que o irmão trouxesse sua garrafa de uísque e um maço de cigarros, o irmão disse que não levaria tais coisas, mas algumas palavras duras o convenceram a atender a vontade do irmão mais velho por mais uma vez. Caminhou então de volta até o lugar em que o irmão o havia deixado. E esperou por poucos instantes a volta do irmão, que não demorou.

                Ele entrou no carro e perguntou ao irmão onde ele ia passar a noite, e o irmão prontamente lhe disse que iria até a casa de uns amigos e que depois eles iriam a uma festa na faculdade, e acrescentou ainda que iria precisar do carro emprestado. O homem então falou para o jovem irmão que não poderia emprestar-lhe o carro esta noite, mas que não seria incomodo deixá-lo e apanhá-lo onde quisesse. Talvez tenha aí começado o maior erro da sua vida, ou pelo menos do que restava dela.

                Eles foram até sua casa, o irmão tomou um banho, se arrumou e ele fez o mesmo. E então desceram para a garagem, no caminho ele falou algumas coisas que o irmão não entendeu, talvez por serem muito complexas, ou talvez porque o uísque já havia adormecido demais a sua língua. Eles entraram no carro e o homem quase bateu antes mesmo de sair da sua vaga na garagem. O irmão lhe pediu para dirigir, e o homem respondeu apenas apontando para a insígnia da Polícia Federal que estava no guarda moedas, como se quisesse dizer que não teria problemas com policias por estar embriagado.

                Ele então chegou à casa do amigo de seu irmão, para apanhar os amigos dele e em seguida levá-los até a faculdade. Os garotos entraram no carro, e mesmo já muito embriagado ele achou um deles familiar, mas não fez perguntas. Os levou até a faculdade e quando lá chegaram ainda estava havendo uma palestra no palco central, do que parecia algum evento muito bem organizado. E o homem ouviu uma coisa muito familiar, que despertou seus sentidos atrapalhados pela embriaguez.

                - Essa voz, eu conheço essa voz – disse o homem. – Eu jamais esqueceria essa voz.

                O irmão olhou espantado para ele, pois também sabia de quem era a voz, era de uma de suas professoras, e também mãe de um dos seus colegas que estava no carro. Mas antes que qualquer palavra lhe ocorresse, o irmão mais velho já tinha deixado o carro e se dirigia até o centro de palestras. E, de maneira adversa ao que era de se esperar, ele se viu ainda mais surpreso ao ver que realmente era quem ele achava que fosse.

                A mulher no palco, ministrando a palestra, uma das mais renomadas estudiosas no assunto da mesma, hesitou em algumas palavras por alguns segundos, levantando risos dos alunos e causando espanto nos demais estudiosos ali presentes. Ela viu no alto, ao lado da última fileira de cadeiras, a última pessoa que ele esperava ver naquela noite, ou que talvez não esperasse rever nunca mais. Mesmo depois de se recompor e retomar o ritmo normal da palestra, todos ali podiam notar que alguma coisa se passava com ela. E em um dado momento, ela finalmente interrompeu a palestra, pediu desculpas pelos deslizes e disse que precisaria se ausentar por alguns minutos.

                Ela saiu pelo backstage do palco, mas não tinha idéia do que fazer. Ela jamais tinha imaginado tal situação. E foi então que pegou seu telefone e tentou algo idiota, coisa que ela jamais faria em uma situação normal. Ela discou um número de quase 20 anos atrás, o número da pessoa que tinha lhe feito perder a compostura diante de centenas de alunos e dezenas de professores, por mais que sua discrição tivesse amenizado a situação. E sua surpresa foi ainda maior quando o telefone chamou do outro lado da linha, o que significava que a linha ainda estava ativa.

                - Alô? Gostaria de falar com quem? – falou uma voz torta, tentando ser dura do outro lado da linha.

                - É. Hum. Esse telefone, ainda é seu então? – ela perguntou em dúvida ainda. – O que você está fazendo aqui?

                - Onde você está? – falou a voz do outro lado da linha. – Você continua tão linda quanto antes. Como você tem vivido todo esse tempo?

                - Você não deveria ter vindo até aqui. Por favor, vai embora.

                - Porque você ainda continua fugindo de mim como antes? Será que não está na hora de admitir as coisas? De me dizer a verdade? Será que eu não mereço saber?

                - Você quer mesmo saber a verdade? Então tudo bem. Eu te deixei porque você era um jovem irresponsável, sem a menor perspectiva de vida, viciado em jogo de cartas, e que não se importava em assegurar um futuro, estudando, por exemplo. Tudo que você parecia querer era diversão. E eu não gostava disso.

                - Mas e de mim? Você gostava de mim?

                - Não importa.

                - Mas é claro que importa. Faz toda a diferença do mundo.

                - Me esquece, esquece que um dia agente se conheceu, que um dia fomos namorados. Esquece que eu existo. E me deixa em paz.

                Ela então desligou o telefone e começou a chorar ali mesmo no backstage. E ele ao ouvir aquelas duras palavras, tentou conter o choro e foi de volta para o carro. Ao chegar lá o seu irmão estava preocupado.

                - Aonde você foi? Porque você está chorando? – perguntou o jovem.

                - Não importa garoto. São problemas meus – responde o homem secamente.

                - Não esquenta cara, é só um velho bêbado. Eu sei que ele é seu irmão, mas ele só está muito chapado, provavelmente porque alguma vadia o dispensou.

                Aquelas palavras entraram na cabeça daquele homem como um sussurro do próprio diabo em busca de maldade. Ele não pensou duas vezes, abriu o porta-luvas do carro, pegou sua pistola calibre .45 e descarregou todas as balas no garoto.

                - O que você fez meu irmão? – perguntou o jovem desesperado. – Ele só tinha 16 anos. Tinha idade pra ser seu filho.

                - Ele pelo menos não viverá até os 20 pra decepcionar-se como eu – respondeu o homem friamente, como se não fosse um ser humano e sim um animal qualquer que ele tivesse acabado de matar.

                As pessoas começaram a subir para ver o que tinha acontecido, e a maioria observava rapidamente a cena e corria para contar à outras pessoas. Até que de repente ele ouviu um grito seco e com ódio.

                - Porque você o matou seu monstro? O que ele te fez? – era ela mais uma vez, e agora, ele podia ver as suas lágrimas.

                - Ele chamou você de vadia – respondeu homem desdenhando.

                - Ela é a mãe dele – intrometeu-se o irmão.

                Naquele momento o mundo estava desmoronando em suas costas, ele percebeu a gravidade da situação. Percebeu que tinha feito algo bem pior do que parecia no início. Fechou a porta do carro deu partida e saiu de lá. Dirigindo pegou o seu gravador de voz e começou a gravar:

                “Hoje eu cometi a pior de todas as burradas de minha vida. E dessa vez não é algo que eu possa consertar, afinal de contas, eu não sou Deus. Eu não tenho certeza se ela me odiava quando desligou aquele telefone, mas depois que a vi chorando sobre o garoto morto e coberto de sangue, eu pude ter certeza que ela me odeia.

                Eu fui inconseqüente por toda a minha vida, ela tem razão mais uma vez. Mas o tempo inteiro eu só queria fazer as coisas acontecerem da melhor maneira possível. Talvez um dia alguém me compreenda.

                Eu adiei esse momento por anos, na verdade por quase duas décadas. Mas agora não irei mais fazer isso. Chegou a hora de partir de uma vez por todas, sumir pra algum lugar onde ninguém poderá me encontrar. Pelo menos a burrada hoje não foi completa, afinal sobrou uma bala na agulha e eu tenho um pouco de gasolina no porta-malas.

               

                Ao meu irmão,

                Os celtas costumavam sepultar seus mortos, colocando-os em uma canoa cheia de gravetos e de lenha, atirando-a a correnteza de um rio e lançando flechas em chamas na mesma para que assim ela queime. Eu sempre quis esse velório para mim, mas sei que muita gente derramaria lágrimas num momento assim. Por isso, vou poupar a todos vocês e, em especial, a você, meu irmão, dessa dor da perda, da despedida.”

                Desligou o gravador e dirigiu-se até um morro que dava de frente pro mar, no caminho parou em um ponto de táxi e instruiu o taxista que este deveria entregar o gravador e a fita em um certo edifício perto de um dos shoppings da cidade, antes que o taxista partisse ele ligou o gravador mais uma vez e gravou o seu nome e sua profissão. No alto do morro e de frente pro mar, observou as ondas quebrarem nas rochas lá embaixo. E pensou, é eu sentirei saudades disso tudo.

                No dia seguinte, os jornais noticiaram que um carro totalmente em chamas havia sido visto afundando perto da margem, e que a polícia e os bombeiros conseguiram retirar o carro, totalmente carbonizado, mas que nenhum um corpo havia sido encontrado. Especula-se que o carro pertencia a um policial federal que estava desaparecido desde a noite anterior quando disparou inúmeras vezes contra um jovem em uma das faculdades da cidade.

                Mais tarde no mesmo dia, o irmão foi até uma delegacia e mostrou a fita ao delegado. Diante da fita, o delegado pediu uma pericia do carro, e uma semana depois tornou-se público que havia vestígios de roupas e tecidos humanos carbonizados, e o homem foi dado como morto. Suicídio. Caso encerrado.



O título é quase 'autoexplicativo' mas não é bem o que parece, apesar de não deixar de ser. Boa leitura.

E não acho que seja uma boa data, mas...